# O que a Folha pensa: É urgente recolocar as contas públicas nos trilhos **By:** folha.uol.com.br **Published:** 2026-08-15T17:28:00Z **Source:** [folha.uol.com.br](https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/08/e-urgente-recolocar-as-contas-publicas-nos-trilhos.shtml) --- WhatsApp Vista aérea da Esplanada dos Ministérios, em Brasília (DF) - Ana Volpe/Agência Senado Começa neste domingo (16) mais uma campanha para a Presidência da República, e não há assunto mais urgente do que o de recolocar as finanças governamentais nos trilhos, única forma de garantir crescimento sustentável. A irresponsabilidade levou as contas públicas até a beira do precipício. Não há justificativa para o acréscimo de mais de dez pontos percentuais do PIB à dívida em quatro anos. Não foi período de pandemia, quando o governo precisa aumentar despesas para amortecer os efeitos sobre a população. O PIB terá crescido 2,7% ao ano de 2023 a 2026, sendo praticamente certo que o pior desempenho do período será neste ano de eleições e de gastança ainda maior. O pior desempenho no último ano do mandato demonstra o quanto é insustentável um crescimento baseado preponderantemente nos gastos do governo. Prevaleceu a opção pela gastança de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o verdadeiro ministro da Fazenda de seu terceiro mandato. A implosão do teto de gastos erguido no interregno de Michel Temer (2016-2018), para a qual já vinham contribuindo as populices eleitorais do final da gestão Jair Bolsonaro (PL), escancarou a porteira para a ressurgência das forças do atraso. No Brasil, o que unifica ideologias diferentes, partidos e Congresso é o saque compulsivo ao erário. Tal conduta é, às vezes, refreada pelo Executivo apenas no início de governos mais responsáveis. Não fosse a independência do Banco Central, que Lula critica a mais não poder, os brasileiros teriam corrido sério risco de voltar a conviver com o drama da aceleração inflacionária, problema estrutural resolvido há mais de 30 anos. A estabilidade da moeda e a democracia estão entre as principais conquistas da sociedade nas últimas décadas. A terapia dos juros cavalares para conter a pressão inflacionária, decorrência da irresponsabilidade fiscal, deixa, porém, sequelas que solapam a capacidade do país de alcançar renda e emprego de forma sustentável. Não há empreendimentos que vinguem se a opção de emprestar a curtíssimo prazo ao Tesouro Nacional ou aos tomadores privados mais confiáveis rende no mínimo 14% ao ano. O estímulo para correr riscos, construir instalações, adquirir maquinário e contratar trabalhadores escorre pelo ralo quando os títulos federais com prazo de uma década pagam 8% de juros ao ano mais a taxa de inflação. Oito por cento é a taxa média do juro básico real no terceiro mandato de Lula, um recorde em 15 anos, indicador inequívoco de grave enfermidade fiscal. O PT, com chances de obter a sua sexta vitória presidencial em outubro, decerto sonha com a destruição da autonomia do BC, o último dique que o impede de realizar a pleno os seus devaneios de política econômica. Seria a deflagração final da corrida para trás, que levaria o Brasil de volta aos anos 1980, quando, para aqueles sem educação financeira, era preciso gastar todo o salário no ato do pagamento para evitar a corrosão inflacionária. Esse cenário felizmente é improvável diante da resistência que uma investida contra a autonomia do BC suscitaria na sociedade e no Congresso Nacional. Na ausência de uma contenção fiscal decisiva, o mais provável é que a manutenção dos juros reais elevados conduza o país a uma recessão. A caixa de ferramentas enferrujadas dos economistas heterodoxos, que estão para a ciência econômica como na pandemia os defensores da cloroquina estavam para a ciência da saúde, inclui outras velharias como controles de câmbio, calotes disfarçados de reestruturação da dívida e tributação das exportações. Esses mensageiros da ruína já circulam à vontade na campanha petista. A principal candidatura de oposição tem um defeito ainda pior. O grupo político de Flávio Bolsonaro (PL) não demonstra adesão à Constituição de 1988. No governo, que findou há menos de quatro anos, seu pai tentou resgatar das catacumbas as tradições autoritárias. Afrontou a cúpula do Judiciário e disseminou mentiras sobre a urna eletrônica a fim de sabotar a confiança no sistema eleitoral. Derrotados pelo voto popular, Jair Bolsonaro e seu séquito cesarista pretenderam cooptar o comando das Forças Armadas para um golpe. Fracassaram em razão sobretudo da resistência da chefia do Exército, mas foram processados e condenados pela audácia de tramar contra a democracia. O Plano Real, a mais bem-sucedida reforma econômica da Nova República, prova que a observância estrita das regras do jogo constitucional e o respeito à democracia são pressupostos para o enfrentamento dos grandes entraves à prosperidade nacional. Apenas pela via regular da institucionalidade o eleito em 2026 poderá debelar a nova ameaça ao principal legado do Real —a estabilidade do poder de compra da moeda e o câmbio livre. O eleitor deve estar atento aos vendedores de ilusões na campanha presidencial. O Brasil só evitará o abismo da crise fiscal se o vencedor da eleição anunciar um programa de redução continuada de despesas federais para começar em janeiro de 2027. A União terá de produzir superávits primários de no mínimo 2% do PIB, ou R$ 260 bilhões, durante os primeiros anos da correção. O péssimo hábito de abater dos resultados fiscais, para efeitos contábeis, despesas com este ou aquele programa —ou de mascarar dispêndios por meio de manobras patrimoniais— terá de ser deixado de lado. Para que reconquiste a confiança, abaladíssima, dos agentes econômicos, o reequilíbrio do Orçamento terá de ser precedido por uma operação de catarata que permita enxergar todo o universo do gasto. Todo gasto e subsídio público deverão ser objetos de revisão e readequação, a começar pela aberração em que se converteram as emendas parlamentares. Por essa filtragem precisam passar as isenções fiscais, as aposentadorias do setor público e do INSS, empresas estatais deficitárias e sem razão de existir, como os Correios e o BRB, para citar apenas dois exemplos, e alguns programas supostamente sociais ineficazes e mal formulados. Determinar pisos e indexadores de gastos para educação e saúde, além de contrassenso orçamentário, inverte a lógica da política pública. É preciso definir antes que programas serão prioritários e as metas a atingir. Só então se busca o financiamento. No Brasil, primeiro se fixa a verba e apenas depois se decide onde gastá-la. Não à toa, o país eleva o gasto, mas as crianças não aprendem e a saúde mal avança. Tampouco faz sentido transferir, via sucessivos aumentos reais do salário mínimo, a eventual e baixa melhora da produtividade de quem está empregado para os que recebem aposentadoria. É jogar carga extra sobre as costas das novas gerações, já obrigadas a serem mais produtivas para sustentar a renda de uma fatia crescente de aposentados. Nenhum Orçamento, público ou doméstico, aguenta tamanha pressão. Cada vez mais famílias e empresas obrigadas a tomar recursos emprestados nesse ambiente de asfixia sucumbirão à inadimplência ou à falência se a situação não for alterada depressa. Correm perigo, entre muitos outros programas de suma importância, os projetos para universalizar o saneamento básico que, apesar da resistência da esquerda à direita arcaicas, deslancharam com o marco regulatório de 2020 e a consequente abertura ao capital privado. Qualquer atalho conduzirá a desastres e retrocessos. Bulir com a independência do Banco Central ou salpicar os feitiços da heterodoxia fará o câmbio e a inflação galoparem. Reduzir a Selic na marra —sem o ajuste fiscal— significará a volta da inflação, como já foi demonstrado no experimento traumático da administração Dilma Rousseff (PT). Ficar parado tampouco é uma opção diante dos juros reais letais. editoriais@grupofolha.com.br WhatsApp Tópicos Leia tudo sobre o tema e siga: Banco Central Congresso Nacional Correios Dilma Rousseff economia editoriais Educação eleições Flávio Bolsonaro forças armadas inflação inss Jair Bolsonaro juros Lula MDB Michel Temer PIB PL PT renda salário mínimo saneamento saúde Selic Envie sua notícia Erramos? Ombudsman Endereço da página https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/08/e-urgente-recolocar-as-contas-publicas-nos-trilhos.shtml notícias da folha no seu email últimas notícias É urgente recolocar as contas públicas nos trilhos Próximo presidente terá de lidar de imediato com a tarefa de equilibrar o Orçamento, sempre sem comprometer a democracia Arminio Fraga diz que Brasil repete erros e compara cenário econômico ao pré-crise do governo Dilma Economista diz ao programa Desenquadrando que vê 'cabo de guerra' entre Banco Central e governo Augusto Cury tem maior patrimônio entre presidenciáveis, e Lula registra queda de bens Candidato pelo Avante, com R$ 242,2 milhões, é o mais rico entre candidatos, seguido por Romeu Zema (Novo), com R$ 178,7 milhões; Recurso exclusivo para assinantes Assine ou Faça login experimente novos formatos de conteúdo Explore recursos gerados por IA a partir de reportagens da Folha Leia resumo para captar a informação principal em poucos segundos Ganhe apoio com tópicos que guiam sua leitura a pontos importantes do texto Assista a vídeos curtos baseados nos temas das reportagens Ouça reportagens com narração natural Monte playlist na Minha Folha para ouvir notícias quando e onde quiser Copyright Folha de S.Paulo. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.