# Bolsonaro foi alertado de 'desvios, fraudes e irregularidades' no INSS durante transição, dizem peritos **By:** Catia Seabra, Thaísa Oliveira **Published:** 2025-09-24T23:00:00Z **Source:** [folha.uol.com.br](https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2025/09/bolsonaro-foi-alertado-de-desvios-fraudes-e-irregularidades-no-inss-durante-transicao-dizem-peritos.shtml) --- Catia Seabra Thaísa Oliveira Brasília A ANMP (Associação Nacional dos Médicos Peritos da Previdência Social) afirmou ter levado ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) informações sobre "desvios, fraudes e irregularidades com o dinheiro público dentro do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social)" durante a montagem do governo. A reunião com o ex-presidente ocorreu em 11 de dezembro de 2018 no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), em Brasília, onde estava instalado o gabinete de transição entre os governos Michel Temer (MDB) e Bolsonaro. Representantes da ANMP foram apresentados à equipe de Bolsonaro pelo senador Izalci Lucas (PL-DF), à época recém-eleito. Em entrevista à Folha em maio, o senador afirmou que peritos do INSS o procuraram após a eleição com denúncias de irregularidades no órgão e pleitos relativos à carreira. Representantes dos peritos do INSS durante reunião com o então presidente eleito, Jair Bolsonaro, em 11 de dezembro de 2018 na sede da transição; na foto, Francisco Cardoso (então presidente da ANMP), Luiz Argolo (então vice-presidente) e Samuel Abranques (diretor sindical) - Divulgação ANMP Em maio e em agosto, a reportagem pediu ao senador o nome dos peritos, mas ele disse não se lembrar. Izalci também afirmou não ter certeza sobre a data da reunião ou o nome de todas as pessoas da transição com quem eles haviam conversado. "Quando eu ganhei para o Senado e o Bolsonaro foi eleito, eles fizeram uma apresentação para mim dos indícios de irregularidade com relação ao seguro-defeso, às aposentadorias rurais, fizeram toda uma exposição. Diante dessa apresentação, eu agendei [uma visita] na transição para eles falarem sobre esses indícios", afirmou. A Folha identificou que os peritos foram recebidos ao menos três vezes no gabinete de transição de Bolsonaro. O primeiro encontro ocorreu em 12 de novembro de 2018 com o ex-ministro Onyx Lorenzoni, à época ministro-chefe do gabinete de transição de Bolsonaro. Segundo o registro feito pela ANMP, a entidade "expôs ao ministro Onyx Lorenzoni os problemas da gestão do INSS e da Previdência Social e seu impacto no déficit do sistema". A associação diz que também tratou da Reforma da Previdência e dos resultados do programa de revisão de benefícios previdenciários feito por Temer. Representantes dos peritos do INSS durante reunião com o ex-ministro Onyx Lorenzoni em 11 de dezembro de 2018 na sede da transição do governo Bolsonaro; da esq. para a dir., Francisco Cardoso (então presidente da ANMP), Lorenzoni, Luiz Argolo (então vice-presidente da ANMP), o senador Izalci Lucas, Samuel Abranques (diretor sindical da ANMP) - Divulgação ANMP Um mês depois, a ANMP foi recebida pessoalmente por Bolsonaro. Outros assuntos também foram discutidos, segundo a associação, como a criação de uma carreira federal de perícia médica, além do "mal que o aparelhamento político e ideológico causou à autarquia e à Previdência Social". "O presidente reforçou a importância de nosso trabalho e ficou surpreso com os números apresentados pela ANMP sobre desvios, fraudes e irregularidades com o dinheiro público dentro do INSS", diz o texto publicado no site da associação na data do encontro. Após a agenda com Bolsonaro, a entidade foi recebida pelo deputado federal Osmar Terra (PL-RS) —que havia sido anunciado por Bolsonaro como ministro da Cidadania— e pelo grupo de trabalho temático da Previdência Social. Luiz Argolo, Osmar Terra, Francisco Cardoso e Samuel Abranques durante reunião em 11 de dezembro de 2018 na sede da transição do governo Bolsonaro - Divulgação ANMP Durante as três agendas, a ANMP foi representada por seu então presidente, Francisco Cardoso (hoje vice-presidente), pelo ex-vice-presidente, Luiz Argolo (hoje presidente), e pelo diretor sindical Samuel Abranques. A associação foi procurada reiteradas vezes antes da publicação da reportagem, por meio de sua assessoria de imprensa e do atual presidente, mas não quis se manifestar. Após a veiculação, a entidade divulgou nota em que afirma que a reportagem é tendenciosa e que os descontos associativos não foram tratados com Bolsonaro. A ANMP afirmou ainda que só tomou conhecimento das denúncias relacionadas ao tema em 2023 e 2024, a partir de reportagens do site Metrópoles. Francisco Cardoso é conselheiro titular do CFM (Conselho Federal de Medicina). Durante a CPI da Pandemia, em 2021, ele foi convidado por parlamentares bolsonaristas para defender a ivermectina, vermífugo sem comprovação científica contra a Covid. No governo Lula (PT), o escândalo das fraudes nos descontos do INSS explodiu após investigações da CGU (Controladoria-Geral da União) e da PF (Polícia Federal). A revelação do esquema culminou na demissão do então ministro da Previdência, Carlos Lupi (PDT). Desgastado, o governo intensificou uma estratégia para responsabilização dos antecessores pelo esquema que levou às irregularidades. Embora governistas insistissem em dizer que a arquitetura fraudulenta tinha sido montada em governos passados, a oposição explorou o escândalo e pressionou pela criação de uma CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) no Congresso. Em dois debates com o deputado federal Alencar Santana (PT-SP), na rede CNN Brasil, em maio e em agosto, Izalci admitiu ter sido procurado por peritos, sem identificá-los. No ar, foi acusado de prevaricação pelo petista. A reunião de Bolsonaro com peritos do INSS motivou outro embate durante a sessão da CPMI do INSS do último dia 8, quando Izalci foi novamente questionado sobre o assunto. Representantes da ANMP (Associação Nacional dos Médicos Peritos da Previdência Social) durante reunião no gabinete de transição do governo Bolsonaro em 12 de novembro de 2018 - Divulgação ANMP "Se algum presidente fez alguma coisa concreta, chama-se Jair Messias Bolsonaro. Agora, eles pegam uma reportagem como essa, criam narrativa e ficam repetindo isso constantemente", respondeu o senador do PL, um dos membros da CPMI. Em maio, quando foi questionado pela Folha, o senador citou a medida provisória 871, editada em 17 de janeiro de 2019, como a resposta do governo Bolsonaro às suspeitas de fraude no INSS. Izalci foi presidente da comissão temporária dedicada ao tema. O senador afirmou que Bolsonaro não tinha maioria de votos, na ocasião, para avançar com a mudança. A MP incluiu uma regra para que o desconto de associações em aposentadorias e pensões fosse autorizado anualmente. Durante a tramitação no Congresso, a exigência passou para três anos a partir de 31 de dezembro de 2021. Em 2021, o Congresso jogou o início da contagem para 31 de dezembro de 2022. Depois, em 2022, a lei que criou o Programa de Simplificação do Microcrédito Digital para Empreendedores revogou a necessidade de reavaliação periódica. A MP foi sancionada por Bolsonaro sem vetos. A Folha tentou contato com Bolsonaro por meio de um assessor e de dois advogados, mas foi informada pela defesa que o ex-presidente está incomunicável por decisão judicial. Onyx afirmou que os peritos do INSS levaram diferentes problemas ao gabinete de transição, mas disse não se recordar de nenhuma menção aos descontos associativos indevidos, pivô da crise atual. A categoria, segundo ele, reivindicava, por exemplo, o pagamento de um bônus de produtividade para tentar diminuir a fila do INSS. "Sempre que falam em perito eu me lembro disso e da luta que faziam por conta da perícia por vídeo. Havia essa preocupação com benefícios indevidos. Na época, eu me lembro que na transição nós recebemos isso e depois, ao longo do governo, nós fomos dando resposta a essas coisas todas", disse. "Mas eu não tenho memória de se falar em desconto associativo [com] o pessoal da perícia. Eu me lembro sim, claramente, que tinha a questão que envolvia o bônus, as escalas dos peritos e tinha essa questão referente à perícia remota, por vídeo." Onyx também afirmou que a MP 871 foi a resposta do governo Bolsonaro a diferentes problemas no INSS, como a necessidade de certidão para a obtenção da aposentadoria rural. "Exigimos a revalidação anual [do desconto em aposentadorias], que depois o Parlamento troca, e também criamos a suspensão por qualquer suspeita. Foram as três medidas que eu considero mais relevantes, tomadas logo no alvorecer do governo", disse. Osmar Terra não respondeu à reportagem. Bens apreendidos em operação da Polícia Federal Voltar Voltar Voltar Compartilhe Facebook Whatsapp X Messenger Linkedin E-mail Copiar link Tópicos Leia tudo sobre o tema e siga: aposentadoria Carlos Lupi Congresso Nacional inss Jair Bolsonaro Onyx Lorenzoni PDT PL previdência social Envie sua notícia Erramos? 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