# OAB faz convênio com empresa de tecnologia de condenado por roubo de dados e golpes virtuais **By:** Levy Teles **Published:** 2026-07-26T05:30:00-03:00 **Source:** [Estadão](https://www.estadao.com.br/politica/oab-faz-convenio-com-empresa-de-tecnologia-de-condenado-por-roubo-de-dados-e-golpes-virtuais) --- Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você BRASÍLIA – A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) fez convênio para disponibilizar serviços tecnológicos de uma empresa que tem entre seus proprietários um homem condenado a 390 anos de prisão por crimes relacionados a roubo de dados e golpes virtuais. A investigação que resultou na condenação do empresário contou com a colaboração do FBI, departamento federal de investigação dos Estados Unidos. Sócio-administrador da Forlex, Daniel Augustus Bichuetti Silva foi condenado pela 11.ª Vara Federal Criminal de Goiás, em 2024, por, entre outras ações, desenvolver e disseminar softwares maliciosos para obter dados bancários de terceiros e invadir dispositivos eletrônicos. OAB divulgou parceria com a Forlex para lançar o OpenDetector. Foto: Reprodução/OAB O empresário, que chegou a ser preso em 2015 na Operação Darkode, da Polícia Federal, recorre da condenação em liberdade. Enquanto isso, ele conseguiu uma parceria com a OAB nacional para disponibilizar uma ferramenta gratuita que promete ajudar advogados na verificação de documentos produzidos com o uso de inteligência artificial (IA). A ferramenta foi divulgada pela OAB na semana passada e já é utilizada por mais de 130 mil advogados no Brasil. Procurada pela reportagem, a defesa de Bichuetti disse que, em julgamento recente, “o Tribunal Regional Federal reconheceu a ausência de diversos elementos de prova que haviam sido apontados pela acusação como fundamento das imputações formuladas contra Bichuetti”. Os advogados não quiseram detalhar o que teria sido revisto pelo tribunal. Procurada pelo Estadão, a Procuradoria Regional da República da 1.ª Região (PRR-1) confirmou a sentença de condenação na primeira instância contra Daniel Bichuetti Silva e disse que a defesa dele recorreu ao TRF-1. Os advogados dele pediram para ter acesso aos documentos da investigação e a relatora, juíza federal Sandra Correia, autorizou. Não há nova decisão e o caso ainda aguarda julgamento. A Forlex afirmou que os fatos ocorreram há mais de 12 anos, e “sem qualquer relação com suas atividades ou operações”. “As operações da companhia seguem normalmente, pautadas pelas práticas de governança e compliance exigidas pelos setores regulados em que atua. A Forlex desenvolve e treina modelos próprios de inteligência artificial e atende hoje mais de 130 mil clientes, em mais de nove jurisdições. A empresa reafirma seu compromisso com clientes, parceiros e colaboradores”, afirmou a Forlex. A OAB informou, por nota, que “não compartilha a base de dados da advocacia com empresas contratadas ou conveniadas e adota várias camadas de segurança para proteger os dados sob sua responsabilidade”. “No caso citado, o convênio não gera custo para a OAB e permite acesso dos advogados que assim desejarem às ferramentas e serviços disponibilizados pela empresa, que também foram contratados por diversas autoridades, governos estrangeiros, empresas nacionais e multinacionais”, disse. A Ordem não quis citar quais organizações contrataram o serviço da empresa de Bichuetti. A Forlex não divulga quem são os contratantes da empresa. Questionada pelo Estadão, se recusou a publicizar os dados, alegando que “essa informação não é pública”. Chamado de OpenDetector, o recurso permite que advogados verifiquem se documentos, e-mails ou respostas geradas por inteligência artificial apresentam dados capazes de comprometer peças, pareceres ou decisões estratégicas. O dispositivo é gratuito para advogados inscritos na OAB. Para usar, cada defensor deve criar uma conta na Forlex. O acesso é liberado mediante a apresentação de nome, endereço de e-mail e senha criada pelo usuário. A partir disso, o advogado faz o upload de documentos no OpenDetector, e a ferramenta analisa, por exemplo, se foram inseridos comandos ocultos neles com o objetivo de enganar modelos de inteligência artificial – o que é chamado de “prompt injection”. Não há restrição sobre os tipos de documentos a serem inserido na plataforma da Forlex, que podem conter, inclusive, dados sensíveis. “Tudo é processado com segurança no seu workspace Forlex, com consentimento explícito”, diz o site. A chamada Operação Darkode, deflagrada pela Polícia Federal há mais de uma década, teve início após comunicação feita pelo FBI à Polícia Federal. O FBI identificou a presença de Bichuetti no chamado “Fórum Darkode”. Esse fórum, aponta a investigação, reunia “uma verdadeira organização criminosa” focada em ataques hackers, com brasileiros e pessoas em outros países. As provas obtidas pelo FBI foram colhidas por um integrante do “Fórum Darkode” que decidiu colaborar com as investigações. Esse informante enviou ao órgão de inteligência dos EUA prints de telas de computador que exibiam as conversas com Bichuetti. O empresário brasileiro se gabava, nesses diálogos, de “ser capaz de diversas proezas no campo da fraude eletrônica”. As informações, então, foram repassadas pelo FBI à Polícia Federal, que conduziu seu próprio inquérito sobre o caso. Nesse fórum, diz a investigação, eles “compartilhavam recursos, informações e programas maliciosos, voltados à negociação de dados de cartões de crédito, ferramentas, credenciais, vulnerabilidades, listas de e-mails e de todo o tipo de informação útil à prática de crimes cibernéticos”. Bichuetti é apontado pelos investigadores como o líder do grupo. “A análise do Laudo de Perícia Criminal em conjunto com os demais elementos de informação obtidos no curso da investigação permite concluir que Daniel Augustus Bichuetti Silva integra organização criminosa, exercendo liderança, cuja função principal é desenvolver artefatos computacionais com a finalidade de subtrair valores de contas bancárias, utilizando a internet”, de acordo com laudo da Polícia Federal. Ainda segundo as investigações, o produto dos crimes era convertido em ativos ilícitos, como joias, carros de luxo e até uma cobertura de luxo em Goiânia, à época da decisão, em 2024, avaliada em mais de R$ 1 milhão. Na condenação expedida pela 11.ª Vara Criminal da Seção Judiciária de Goiás, Bichuetti foi condenado pelo crime de furto qualificado mediante fraude (cometido 94 vezes) e lavagem de dinheiro (cometido 104 vezes). Ele já praticava crimes desse tipo desde 2006, segundo a sentença, assinada pelo juiz federal Gilson Jader Gonçalves Vieira Filho. “Daniel Augustus Bichuetti Silva atuavacomo ‘hacker’, especificamente um ‘cracker’, ou seja, indivíduo que, por meio de operações e programas maliciosos, invade dispositivos informáticos, com o fim de causar danos e obter vantagem financeira indevida em prejuízo de outrem. Tais fatos são conhecidos desde 2006, no âmbito da Operação Trilha 1. Não obstante, em 2015, a Operação Darkode I e, em 2017, a Operação Darkode II (na qual se incluem estes autos) constataram que o réu prosseguia praticando tais crimes”, disse. A investigação no âmbito da Darkode mostrou que computadores sob comando do operador do esquema chegaram a capturar 9,5 milhões de formulários de páginas de internet e 30 mil informações de login em sites na rede. Empresário tem condenação por desenvolver programas maliciosos para obter dados bancários Bichuetti também foi condenado a nove anos de prisão pelo TRF-1 em 2024. O caso tramita no Superior Tribunal de Justiça (STJ), após tentativa da defesa de anular as provas obtidas pela investigação entre 2013 e 2018. A condenação ocorreu após denúncia oferecida Ministério Público Federal (MPF), em 2020, mostrar que ele desenvolvia e espalhava programas maliciosos para obter dados bancários de usuários de internet. Laudo pericial da Polícia Federal indicou que ele chegou a comprometer mais de 82 mil computadores e possuía listas com mais de 5 milhões de e-mails para disseminar o vírus. Usando uma identidade falsa, Bichuetti abriu contas em instituições financeiras e em corretoras de criptomoedas para movimentar dinheiro obtido de origem ilícita. Ao ser interrogado pela polícia, ele informou ter 3 mil bitcoins. Em cotação atual, feita no dia 22 de julho deste ano, 3 mil bitcoins seriam equivalentes a R$ 1 bilhão. O juiz Gilson Jader Gonçalves Vieira Filho, em sentença de 2024, indicou que, à época, essa quantidade em criptomoedas equivaleria a R$ 162 milhões. No STJ, o relator Sebastião Reis Júnior, em maio deste ano, negou o recurso especial apresentado pela defesa e rejeitou a nulidade de provas obtidas pelo FBI. Procurada pelo Estadão, a defesa de Bichuetti afirmou que a ação é resultado de desdobramentos da Operação Darkode. “O processo mencionado não decorre de uma nova investigação ou de fatos distintos. Trata-se de um desdobramento da mesma operação, que foi objeto de fatiamento processual”, disse. A Forlex, empresa de Bichuetti, foi fundada em 2023 como uma startup brasileira de inteligência artificial para a área jurídica. Além da parceria com a OAB, já captou R$ 3,6 milhões em uma rodada liderada pela Vinci Ventures. Com suporte da Amazon Web Services (AWS), foi a primeira startup da América Latina a utilizar os chips Nvidia BlackSwell, equipamentos de ponta voltados à IA generativa. O Estadão mostrou em abril que Bichuetti pretende se mudar para os Estados Unidos nos próximos meses para realizar uma rodada de investimentos com fundos americanos.