# Menos dinheiro no fim do mês: renda disponível do brasileiro cai para menor nível da história **By:** Luiz Guilherme Gerbelli, Renée Pereira **Published:** 2026-08-09T05:30:00-03:00 **Source:** [Estadão](https://www.estadao.com.br/economia/menos-dinheiro-renda-disponivel-brasileiro-cai-menor-nivel-historico) --- Inflação mais alta do que o previsto e juros elevados têm pressionado as contas das famílias brasileiras O cenário atual de inflação mais alta do que o previsto e juros elevados tem pressionado o orçamento doméstico. Hoje, de cada R$ 100 recebidos pelos brasileiros, sobram pouco mais de R$ 20 para consumo, depois de as famílias gastarem com itens essenciais e com o pagamento dos serviços de dívidas, como empréstimos e financiamentos. Essa folga no orçamento ronda os patamares mais baixos já apurados pelo levantamento da consultoria Tendências, que começou a ser realizado em 2011. Em maio, segundo o dado mais recente da pesquisa, a sobra depois de todas essas despesas era de 21,7% (R$ 21,7 a cada R$ 100) — o resultado mais baixo da série histórica foi observado em janeiro e fevereiro deste ano (21%). Sem o custo das dívidas, o montante que fica disponível para outros gastos é de cerca de R$ 41. Em maio, por exemplo, a renda disponível depois de despesas com alimentação, transporte, aluguel e medicamentos era de 41,64% do total recebido (ou R$ 41,64 de cada R$ 100 recebidos). Publicidade “Temos um cenário econômico até o início da guerra e um cenário bem diferente depois do início da guerra. Já esperávamos uma inflação mais pressionada. A renda disponível seria baixa em 2026, mas o que aconteceu foi que a inflação aumentou mais do que esperávamos”, afirma Isabela Tavares, analista da consultoria Tendências. “Pode parecer uma variação pequena, mas qualquer 0,1 ponto (porcentual) na renda disponível acaba afetando bastante o orçamento das famílias”, acrescenta. Em 2026, os preços têm sido pressionados por causa do choque do petróleo, o que reverbera, por exemplo, em alta nos custos de fretes, combustíveis e bens industriais. Pela frente, ainda há expectativa de efeitos do que deve ser um El Niño bastante duro. Publicidade “O El Niño vai afetar a produção de alguns alimentos, algumas culturas, principalmente no Sul. Isso vai afetar o preço dos alimentos tanto no final deste ano como no começo do ano que vem”, afirma Isabela. Um termômetro de como as projeções de inflação pioraram ao longo do ano pode ser observado na pesquisa Focus, elaborada por bancos e consultorias. Em janeiro, as projeções dos analistas para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) eram de 4,31%. Na última pesquisa divulgada, a previsão estava em 5,03%. De cada R$ 100 recebidos pelos brasileiros, sobram pouco mais de R$ 20 para consumo, depois de as famílias gastarem com itens essenciais e com o pagamento dos serviço de dívidas Foto: Tiago Queiroz/Estadão Conta do supermercado cada vez mais cara Uma pesquisa recente da empresa global de ciência de dados Dunnhumby, com 10 mil pessoas, mostrou que o brasileiro gasta em média R$ 1.073,98 por mês com supermercados — o equivalente a quase 50% da renda da maior parte das famílias consultadas. Para o economista Alexandre Bertoncello, consultor financeiro da Bella Investimentos, o supermercado é onde a perda de poder de compra se torna mais perceptível, justamente por concentrar produtos essenciais do dia a dia. A pressão sobre o orçamento é ainda maior porque a inflação de alimentos e bebidas tem ficado acima da inflação geral. Em julho, por exemplo, o IPCA-15 estava em 3,51% no ano, abaixo dos 4,37% do grupo de alimentos e bebidas. “A inflação acaba com o poder de compra da população, especialmente para quem usa boa parte do salário para comprar comida.” O peso do endividamento, outro ponto de pressão sobre o orçamento, está associado à elevada taxa de juros, avalia o economista. Uma tendência que tem preocupado, diz ele, é o uso do cartão de crédito para parcelar compras de alimentos. “Não se deve parcelar supermercado, que é uma despesa corrente, no cartão de crédito. Se houver atraso no pagamento, os juros sobre o valor da compra comprometem ainda mais o poder de compra”, afirma. Atualmente, a taxa básica de juros, a Selic, está em 14% ao ano. Na semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu em 0,25 ponto porcentual o juros e há expectativa de novo corte em setembro, o que levaria a taxa para 13,75% ao ano, patamar considerado ainda muito elevado. PUBLICIDADE Com a Selic alta e endividamento elevado (na capital paulista, alcança 74,1% dos lares), sobra pouco espaço no orçamento das famílias para investir ou adquirir bens duráveis. De acordo com a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), a Intenção de Consumo das Famílias (ICF) recuou em julho pela quarta vez consecutiva. A sequência de recuos mostra que a confiança (ou a falta dela) não tem ajudado a impulsionar o consumo. Endividamento das famílias é foco da campanha eleitoral A fraqueza do orçamento das famílias entrou na campanha presidencial. Em meio a um cenário eleitoral competitivo, a dois meses do primeiro turno, o governo vem lançando uma série de medidas para tentar aliviar a situação financeira das famílias. A principal aposta é o novo Desenrola. O programa deveria terminar em 31 de agosto, mas foi prorrogado por mais um mês. Segundo dados do balanço mais atual do Ministério da Fazenda, já foram realizadas 3,6 milhões de operações no novo Desenrola destinado às famílias. “Como vimos em anos anteriores, a gente acredita que o Desenrola tem um impacto mais de curto prazo do que de longo prazo. Ele não resolve o problema. Só alivia”, afirma Anna Carolina Gouveia, economista do FGV Ibre. “É uma solução mais de curto prazo. Não resolve o nosso problema estrutural de endividamento e inadimplência.” Quem tem melhorado? Por ora, apenas as famílias de renda mais baixa têm sinalizado algum tipo de melhora no seu orçamento. Apurado pelo FGV Ibre, o índice de situação financeira das classes com renda de até R$ 2,1 mil avançou 13,1 pontos desde dezembro do ano passado, para 91,5 pontos, o maior ganho entre todos os grupos de renda pesquisados. “O que acho que ocorreu para essa melhora é a manutenção do mercado de trabalho. Isso é muito importante para os consumidores, principalmente para os de faixa de renda mais baixa”, diz Anna Carolina. “E acredito também que há outros fatores, como o reajuste do salário mínimo, a isenção do Imposto de Renda, que também pode ter influenciado para ter um alívio da situação financeira, e o Desenrola.” Para as demais faixas de renda, os números do FGV Ibre mostram que não houve melhora. O índice de situação financeira atual tem oscilado entre 60 e 70 pontos. “A melhora da situação financeira da classe com renda até R$ 2,1 mil é importante, mas provavelmente insuficiente para dizer que o brasileiro de renda mais baixa está em situação confortável e continuará no futuro, dado o próprio nível de endividamento e inadimplência elevado que atingem a todos”, afirma. Publicidade Em junho, 83,7 milhões de pessoas estavam inadimplentes, de acordo com o último levantamento da Serasa. É o maior patamar já apurado. Ao todo, as dívidas atrasadas somavam R$ 579 bilhões. A maior parte estava concentrada em bancos e cartões de crédito (27,3%), seguida de contas básicas, como de água e luz (21,3%). “As despesas do dia, como supermercado e contas recorrentes, concentram mais da metade do orçamento. São 57% do orçamento mensal dessas famílias”, diz Aline Vieira, especialista da Serasa em educação financeira. “Ou seja, quando as despesas essenciais ocupam mais da metade do orçamento, sobra menos margem para absorver imprevistos.” “Em resumo, a gente tá dizendo que a perda do poder aquisitivo do brasileiro é resultado da sobreposição dos dois fatores. A inflação, tá, que encarece ali aquelas necessidades básicas, e o próprio endividamento, não por pelo endividamento em si. Mas pelos juros, que retiram a renda disponível. Aquela história de comprar comida a prazo em algum momento fica muito mais caro comprar comida porque fica inviável pelos juros. Publicidade O supermercado é o lugar mais visível, psicologicamente é o que mais afeta. Porque ele tem produtos essenciais. Mas o consumidor não necessariamente é impactado de uma maneira mais forte ali. Ele é impactado principalmente nos serviços. Mas ele consegue de alguma forma, eh, postergar o consumo ali. E pra fechar, a questão central, não só o fato do do brasileiro médio gastar mais de 1000 reais por mês no supermercado. Mas o quanto ela representa na renda das famílias. Porque quem recebe 10 salários mínimos ou 10 mil reais ou 5 mil reais ele consegue administrar melhor esse custo per capita de 1000 reais por mês. Mas a renda média do brasileiro que não supera 3 mil reais, você fala que quase, é, um terço da renda do do trabalhador, é, é destinada a comprar comida. E se você retirar a classe A que são aqueles que ganham mais de 10 salários mínimos por mês a renda per capita do brasileiro vai pra 2 e 400. E faz com que 40% seja destinado para a comida. E isso é muito forte, demonstra justamente o impacto maior pras classes mais baixas desse estudo. Demonstra a fragilidade do tecido social brasileiro."