# Opinião | Tarifa zero: entre a intenção e a viabilidade **By:** Jurandir Fernandes **Published:** 2026-07-27T03:00:00-03:00 **Source:** [Estadão](https://www.estadao.com.br/opiniao/espaco-aberto/tarifa-zero-entre-a-intencao-e-a-viabilidade) --- O recém-empossado prefeito da cidade de Nova York anunciou a intenção de congelar os aluguéis e implantar a tarifa zero nos ônibus urbanos, financiando a medida por meio do aumento de impostos sobre contribuintes com renda anual superior a US$ 1 milhão. Embora a promessa tenha sido feita no âmbito municipal, a gestão do sistema de transportes da cidade é atribuição da Metropolitan Transportation Authority (MTA), órgão estadual que deve aprovar qualquer alteração tarifária segundo seus próprios trâmites institucionais. Até o momento, não houve pedido formal à MTA, tampouco encaminhamento de projeto de lei ao City Council que trate da extinção da tarifa ou da correspondente reprogramação orçamentária. É inegável o apelo social de uma proposta que promete aliviar o bolso do cidadão e democratizar o acesso à mobilidade. No entanto, como profissionais do setor de transportes, temos a responsabilidade de submeter tais promessas ao crivo da realidade econômica de São Paulo e da complexidade operacional de um sistema com cerca de 14 mil ônibus. É importante qualificar a tarifa zero em São Paulo, não com base em anseios partidários ou traços ideológicos, mas em dados concretos e projeções fiscais. A intenção não é desqualificar a nobreza de se buscar maior equidade no acesso ao transporte, mas sim alertar para os perigos de soluções populistas que, embora sedutoras, podem comprometer a saúde financeira de uma megacidade e a qualidade dos seus serviços públicos essenciais. A mobilidade urbana é um direito, mas sua sustentabilidade exige responsabilidade e planejamento. A promessa, quando analisada em contextos tão distintos como Nova York e São Paulo, revela uma profunda desconexão entre a retórica política e a capacidade fiscal. A comparação entre as duas megacidades, embora tentadora, é falaciosa se não considerarmos as estruturas orçamentárias e as capacidades de financiamento de cada uma delas. Em Nova York, a proposta de Zohran Mamdani para a gratuidade dos ônibus tem um custo estimado entre US$ 650 e US$ 980 milhões anualmente (incluindo o aumento de demanda). Este valor representa um impacto de aproximadamente 0,75% no orçamento municipal da cidade que é de US$ 115,1 bilhões. O custo da tarifa zero em Nova York, embora significativo, é bastante viável, uma vez que a cidade possui uma base tributária robusta e diversificada com capacidade de criar impostos dedicados. A realidade da cidade de São Paulo é dramaticamente diferente. Com um orçamento de R$ 137,4 bilhões, aí incluída a Seguridade Social dos funcionários municipais, a implementação da tarifa zero nos ônibus locais consumiria cerca de R$ 14,7 bilhões anuais para cobrir a receita tarifária extinta, o subsídio atual e os custos adicionais de um aumento de demanda de 30% como cenário. Este valor considera os custos abolidos decorrentes da extinção da cobrança da tarifa e não considera os gastos com infraestrutura e pessoal para suportar o aumento da oferta. É, portanto, um cenário conservador. A tarifa zero paulistana representaria um impacto de cerca de 11% no orçamento inteiro da cidade e mais de 78% do total alocado para investimentos, boa parte já contratados. Pior, não seria um gasto pontual, mas sim permanente. A tarifa zero zeraria com certeza todo o investimento em infraestrutura da cidade até ser um dia revogada. A diferença é gritante: 0,75% em Nova York versus 11% em São Paulo, impacto relativo 15 vezes maior. Essa disparidade não é meramente numérica. Enquanto Nova York pode acomodar tal custo com ajustes tributários específicos e sem comprometer outros serviços essenciais, São Paulo, com um orçamento já comprometido com demandas em áreas críticas, enfrentaria um colapso na manutenção e expansão de seus serviços públicos. A ilusão da tarifa zero em São Paulo reside na ignorância ou na deliberada omissão dessa realidade fiscal incontornável. A discussão, portanto, não se resume à pergunta simplista sobre se é possível financiar a tarifa zero, mas sim se essa é a alocação mais eficiente e responsável dos recursos públicos diante dos desafios concretos enfrentados por São Paulo. Em um contexto de restrição fiscal severa e de demandas urgentes por investimentos em infraestrutura, produtividade operacional e adaptação climática, comprometer parcela tão significativa do orçamento com um gasto permanente e concentrado revela-se uma escolha de alto risco. Mobilidade urbana é, sem dúvida, um direito fundamental, mas sua ampliação sustentável exige mais do que intenção política: requer planejamento rigoroso, responsabilidade fiscal e compromisso com soluções que maximizem o retorno social de cada real investido.