# Artur Rodrigues: Vorcaro tinha ações de interessada em julgamento ao se reunir com Mendonça **By:** Artur Rodrigues **Published:** 2026-09-15T17:16:38.000Z **Source:** [UOL](https://noticias.uol.com.br/colunas/artur-rodrigues/2026/09/15/vorcaro-tinha-acoes-de-interessada-em-acao-no-stf-ao-se-reunir-com-mendonca.htm) --- Vorcaro tinha ações de interessada em julgamento ao se reunir com Mendonça Montagem de fotos de Daniel Vorcaro e André Mendonça Imagem: Rubens Cavallari/Folhapress e Adriano Machado/Reuters Resumo O grupo empresarial de Daniel Vorcaro tinha créditos garantidos por 100% das ações de uma concessionária de cemitérios de São Paulo que seria afetada por um julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal) quando ele se encontrou com o ministro André Mendonça. A ligação ganhou importância após o ministro Flávio Dino destacar o encontro ao determinar diligências para esclarecer as relações do conglomerado de Vorcaro com as concessionárias dos serviços funerários paulistanos. O encontro aconteceu em 14 de março de 2025, no mesmo dia em que o plenário virtual do STF começou a julgar medidas que limitavam preços e ampliavam a fiscalização dos serviços funerários privatizados na capital. Um dia depois, Mendonça pediu vista e suspendeu a análise. Grupo ligado a Moraes vence o '1º tempo' no STF Suspeita contra Moraes não justifica interferência Discussão entre Fachin e Dino reflete clima de guerra Em seu despacho, Dino citou que Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, ocupava um cargo no conselho de uma concessionária do grupo Cortel. Documentos obtidos pelo UOL revelam outra ligação: desta vez, do Master com a outra empresa interessada no julgamento. Créditos relacionados Cemitérios e Crematórios SP, concessionária ligada ao Grupo Maya, garantiram ao Master a propriedade das ações da empresa. Os créditos tinham origem em dois financiamentos concedidos pelo Master, que totalizavam R$ 78 milhões. A três acionistas da concessionária —Conata Engenharia, Infracon Engenharia e RMG Construções e Empreendimentos— alienaram fiduciariamente ao Master todas as ações da empresa. Na alienação fiduciária, a propriedade é transferida como garantia da dívida, sem que isso transforme necessariamente o credor em acionista formal da companhia. O contrato estabelecia que o credor passaria a deter a "propriedade resolúvel" das ações até o pagamento da dívida. O acordo também dava credor poderes sobre determinadas decisões societárias. As acionistas formais deveriam encaminhar as convocações das assembleias. Quando uma deliberação pudesse afetar os interesses do credor, ele poderia determinar por escrito como elas deveriam votar. O contrato afirma que as acionistas deveriam exercer ou deixar de exercer o direito de voto de acordo com a "orientação exclusiva" do proprietário fiduciário. Elas também não poderiam aprovar a venda ou a aquisição de determinados ativos sem sua autorização. Antes do encontro entre Vorcaro e Mendonça, os créditos passaram por uma sequência de operações financeiras dentro de uma estrutura ligada ao conglomerado e chegaram até a Master Holding, nas Ilhas Cayman, empresa ligada ao grupo de Vorcaro. Esses créditos depois acabariam como moeda de troca com o BRB, após negociação com o banco Master. Encontro coincidiu com julgamento Em 13 de março de 2025, Dino complementou uma decisão sobre os serviços funerários e cemiteriais de São Paulo. Ele manteve uma ordem que limitava os preços cobrados pelas concessionárias e determinou medidas de transparência, fiscalização e atendimento aos usuários. O julgamento sobre a confirmação dessas determinações começou no plenário virtual no dia seguinte. Em 14 de março, Mendonça recebeu Vorcaro na sede do Instituto Iter, em São Paulo. No dia 15, pediu vista e suspendeu a análise. Quando devolveu o processo, Mendonça abriu divergência e votou contra a confirmação das cautelares de Dino. As medidas atingiam as diferentes concessionárias dos serviços funerários paulistanos, entre elas empresas ligadas aos grupos Maya e Cortel. No posicionamento recente, Dino destacou a proximidade entre a reunião e o julgamento e determinou diligências para esclarecer as relações entre fundos ligados ao Master e as concessionárias. Os vínculos documentados são distintos. Os financiamentos garantidos pelas ações envolviam a Cemitérios e Crematórios SP, ligada ao Grupo Maya. No caso da Cortel, a relação mencionada por Dino passa pela atuação de Zettel e pela presença de fundos relacionados ao Master no setor funerário. A coluna de Demétrio Vecchioli, no Metrópoles, revelou nota técnica da SP Regula segundo a qual a concessionária informou que Zettel não era acionista direto ou indireto, controlador ou integrante do grupo econômico da Cortel. A empresa afirmou também que ele deixou o conselho em outubro de 2025. Portanto, a manifestação nega participação societária, mas confirma que Zettel exerceu função no conselho da concessionária. Dino requisitou à CVM (Comissão de Valores Mobiliários) informações detalhadas sobre as relações entre fundos de investimento e todas as concessionárias de cemitérios de São Paulo. Por meio de nota, a Prefeitura de São Paulo disse afirmou que as contratações foram regulares e realizadas dentro da legalidade. Segundo a administração municipal, suspeitas contra a prefeitura estariam sendo usadas para construir narrativas políticas sem respaldo nos fatos e para desviar o foco de questionamentos envolvendo o Supremo Tribunal Federal. Sobre a concessão dos serviços funerários, a SP Regula informou que relações financeiras das concessionárias com bancos ou fundos privados não configuram, por si só, irregularidade contratual. A agência afirmou ainda que acompanha permanentemente a capacidade econômico-financeira das empresas e fiscaliza os contratos de forma contínua e regular.