# Opinião | A cientista que parou de acreditar na ciência – o caso da polilaminina **By:** Luís Fernando Correia **Published:** 2026-08-11T16:00:23-03:00 **Source:** [Estadão](https://estadao.com.br/pulsa/luis-fernando-correia/a-cientista-que-parou-de-acreditar-na-ciencia-o-caso-da-polilaminina) --- A cientista que parou de acreditar na ciência – o caso da polilaminina Na busca por provar que a polilaminina funciona, o método científico parece ter virado um detalhe inconveniente para a pesquisadora Tatiana Sampaio Imagina um cientista que, diante das regras da ciência, dá de ombros e diz: “Essas regras não valem pra mim.” Pois é mais ou menos isso que está acontecendo no Brasil, mais especificamente com o caso da polilaminina. E é uma história estranha — porque é sobre uma cientista que, no fundo, parou de acreditar na própria ciência. Vamos do começo, com justiça: a polilaminina foi desenvolvida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) pela bióloga Tatiana Sampaio para tratar lesões na medula. A ideia é boa, a esperança é real e os primeiros relatos emocionaram o País. Até aqui, tudo certo: ciência começa com uma boa hipótese e muita coragem. O problema é o que veio depois. Em fevereiro, durante entrevista ao programa Roda Viva, Tatiana defendeu os dados preliminares da sua pesquisa e chegou a considerar a realização das próximas etapas sem grupo controle. Ou seja, algo que não só é incomum como também é desaconselhado pela comunidade científica, como apontou reportagem do Pulsa. Na última sexta-feira, 7, no palco da Rio Innovation Week, mais uma polêmica. A pesquisadora apresentou dados sobre pacientes que receberam a substância por meio de uso compassivo – nesse modelo, quando não há tratamentos eficazes à disposição, as pessoas buscam a Anvisa ou a Justiça para ter acesso a terapias ainda experimentais. Isso significa que os indivíduos que receberam a polilaminina por esse caminho não foram avaliados dentro de um protocolo de pesquisa. Tatiana Sampaio durante apresentação na Rio Innovation Week Foto: Pedro Kirilos/Estadão Durante a apresentação, Tatiana revelou que 105 pessoas tiveram acesso à substância por uso compassivo, isto é, antes mesmo de o estudo clínico ficar pronto. Dessas, como apontou o Pulsa, 17 passaram pela aplicação há mais de seis meses e foram avaliadas em fevereiro e no início de agosto para monitoramento da evolução. Enquanto oito teriam registrado alguma melhora sensorial ou motora, três morreram. Pegando o universo total de indivíduos em uso compassivo, aí são sete mortes. O laboratório diz que não há ligação comprovada entre a polilaminina e os óbitos. Pode ser. Mas ‘sem ligação comprovada’ e ‘comprovadamente seguro’ são coisas muito diferentes. Estudo piloto da polilaminina é publicado em revista científica com tom cauteloso sobre eficácia E aqui está o ponto que me inquieta como médico. Em vez de acelerar os testes de segurança, a cientista sinalizou que eles seriam dispensáveis — porque, para ela, a molécula já funciona. Ela chegou a afirmar que o resultado ‘não é passível de questionamento’. Como assim, não é passível de questionamento? Questionar é o coração da ciência. Uma afirmação que ninguém pode testar não é ciência — é fé. As regras ‘chatas’ existem por um motivo: grupo controle, fases um, dois e três, revisão por pares. Lesão medular pode ter recuperação espontânea, tem o efeito da fisioterapia, tem variação de pessoa pra pessoa. Sem um grupo de comparação, ninguém sabe se a melhora foi por causa do remédio ou da vida seguindo seu curso. Cem relatos empolgantes não substituem um único ensaio bem feito. E é aqui que a história fica estranha. Ninguém está dizendo que a polilaminina é fraude. O que assusta é ver uma cientista do sistema público abandonar as próprias ferramentas que a ciência criou para não se enganar. Ela não deixou de acreditar na natureza nem nas células. Ela deixou de acreditar no método. E ciência sem método é só opinião de jaleco. A gente pode e deve torcer pela polilaminina. Mas concluir antes da prova é exatamente o contrário de ciência. Aqui, no Pulsa, a regra é uma só: sinal limpo, sem ruído.